O que é o Ch’an

Ch’an (chinês; em sânscrito, dhyāna; em japonês, zen: “meditação” ou “absorção”): O nome do maior movimento, ou escola, de Budismo Chinês que significa, literalmente, “a escola de meditação”.

Esta escola vê-se, geralmente, a si mesma, abstendo-se dos estudos doutrinais, textuais e éticos para favorecer o cultivo de uma realização directa da experiência de iluminação (bodhi) do Buda. A palavra ch’an era originalmente parte de uma palavra composta de dois caracteres “ch’an – na”, uma tentativa de reproduzir foneticamente a palavra sânscrita dhiyāna (meditação).

Com o tempo, o segundo caractere foi abandonado e tornou-se conhecida, simplesmente, como ch’an. As suas técnicas para esse cultivo incluem o estudo de kōans e da “iluminação silenciosa”
(chinês, Mo-zhao Ch’an). O primeiro envolve a contemplação de uma história curta sobre os mestres iluminados do passado ou frases enigmáticas que empurram o praticante até aos limites da racionalidade, na tentativa de irromper numa percepção directa da realidade. O segundo, frequentemente desenvolvido em oposição ao primeiro, envolve, simplesmente sentar-se sem qualquer conteúdo ou forma mental em particular a fim de perceber que a sua budeidade já é completa e perfeita como ela é.

Fonte: Glossário do livro Budismo Puro e Simples, Ven. Mestre Hsing Yun

O Yogāchāra

Yogāchāra (sânscrito “prática da “yoga”): Uma importante escola Mahāyāna que surgiu no século IV E.C., vista pelos seus fundadores como um antídoto às dificuldades epistemológicas e soteriológicas inerentes à Madhyamaka mais tardia. A escola é também conhecida como Vijñānavāda (O Caminho da Consciência) aludindo aos seus interesses epistemológicos. O termo citta-mātra (mente apenas) é também, algumas vezes, aplicado a ela. As origens da escola Yogāchāra estão envoltas em mistério, não obstante pesquisas recentes sugerirem que ela teve ligações explicitas com a escola Gandhāra dos Sarvāstivāda – também conhecida como
Sautrāntika ou Mūla– sarvāstivāda – que não aceitava as teorias da literatura Vibhāshā produzida pelo ramo Sarvāstivāda de Caxemira.

Os fundadores da escola eram Maitreyanātha, Asanga e Vasubandhu, cada qual contribuindo com nuances inovadoras, com adições importantes feitas por comentaristas posteriores tais como
Sthiramati e Dharmapalā. A Yogāchāra floresceu na Índia até o século VIII E.C., quando gradualmente se uniu com uma forma modificada da Svātantrika-Madhyamaka, assim combinando os melhores elementos das duas escolas. Outros membros posteriores da Escola Yogāchāra, tais como Dignāga e Dharmakīrti, também fizeram contribuições germinais para o desenvolvimento da lógica (pramāna) budista. A Yogāchāra foi levada à China graças aos
esforços de Paramārtha e Xüan-zang, este sendo responsável pela introdução da interpretação idealista e ontológica do Dharmapalā por intermédio do seu professor Sīlabhadra. A Yogāchāra foi também introduzida e amplamente estudada no Tibete, mas aí, a sua compreensão correcta foi comprometida pelo viés Madhyamaka predominante reflectido na tradicional doxologia tibetana.
O código básico de escrita das teorias da Yogāchāra é o Sandhinirmocana Sūtra com esboços anteriores no Sūtra Dasabhumika e o Sūtra Avatamsaka. Algumas vezes o Sūtra Lankāvatāra é citado erroneamente como um trabalho da Yogāchāra, mas este sincrético texto mais tardio, que combina conceitos do tathāgata-garbha com elementos da teoria da Yogāchāra, não era conhecido pelos fundadores da Yogāchāra e, assim, não deve ser enumerado entre os trabalhos autênticos da escola. Trabalhos atribuídos de forma variada a Maitreyanātha, Asanga e Vasubandhu incluem o Abhidharma-samuccaya, o Dharma-dharmāta-vibhāga, o Madhyanta-
vibhāga-kārikā, o Mahāyāna-samgraha, o Mahāyāna-sūtrālamkāra, o Tri-svabhāva-nirdesa, o Trimsikā, o Vimsatikā e o enciclopédico Yogā-cārabhumi Sāstra.

O pensamento Yogāchāra representa, sem dúvida alguma, a filosofia mais complexa e sofisticada desenvolvida pelo budismo indiano, mas esta riqueza criou consideráveis dificuldades para se
avaliar correctamente as suas doutrinas. Era comum ver a Yogāchāra como uma forma budista de idealismo, devido a uma falta de pesquisa baseada nos autênticos textos Yogāchāra, combinada
com distorções encontradas na literatura de segunda ordem do Tibete e da Ásia Ocidental (literatura essa baseada nas tendências mais tardias da Yogāchāra). Uma nova geração de estudiosos tem mostrado, gradualmente, que essa compreensão é enganadora e inadequada e sugerem que a antiga Yogāchāra é na realidade um sistema epistemológico e não ontológico.
Como sugere o seu nome, as doutrinas e teorias centrais Yogāchāra derivam, particularmente, de experiências de meditação e dizem respeito a dois temas básicos, interconectados: a natureza
da mente e a natureza da experiência. Para explicar todos os aspectos e funções da mente, oito aspectos ou modos de consciência são distinguidos – o ālaya-vijñāna, a mente aflitiva (klista-manas) e as seis tradicionais consciências de visão, audição, olfacto, paladar, tacto e pensamento. Enquanto os seres não iluminados passarem por renascimentos no samsāra, um fluxo de marcas (bīja ou vāsanā), originados de experiências e acções, são implantados nas suas mentes, permanecendo dormentes até que circunstâncias favoráveis ocorram para que eles manifestem
seus conteúdos na forma de um dualismo ilusório, do sujeito experimentador e dos objectos experimentados.
O aspecto da mente envolvida neste processo é o substrato ou a consciência reservatório (ālaya-vijñāna) que, por meio dos efeitos dessas marcas, produz também, de maneira sequencial, modos
adicionais de consciência subjectiva, assim como os seus conteúdos percebidos. Estas são as mentes aflitivas (klista-manas) que geram a ideia de eu (ātman) por meio da sua percepção confusa do ālaya-vijñāna e tingem as Seis Consciências remanescentes com distorções cognitivas e emocionais que predispõe um ser à criação de mais marcas. Desse modo, toda experiência não iluminada é fabricada pelos vários aspectos da mente, na medida em que ela gera um falso eu e projecta objectos ilusórios sobre a realidade.
A natureza ontológica da realidade não é discutida, ainda que fique claro, devido a antigos textos Yogāchāra, que se pensa que os simples objectos (vastu-mātra) que compreendem a realidade
existam independentemente do indivíduo, embora nunca sejam directamente experimentados pelas mentes dualísticas dos não iluminados. A maneira como os seres experimentam o mundo
é mais completamente descrita, em detalhes, por meio da inovadora doutrina Yogāchāra das “três naturezas” (tri-svabhāva): a imaginada (parikalpita), a dependente (paratantra) e as naturezas
consumadas (parinishpanna).

Quando todas as insalubres predisposições implantadas forem eliminadas do ālaya-vijñāna de um indivíduo e o falso dualismo de um eu que percebe e dos objectos percebidos for totalmente
abandonado no momento da iluminação ou nirvāna, uma transformação ocorre, na qual vários aspectos da mente se transformam nas Consciências do Buda (buddha-jñāna) – a ālaya-vijñāna torna-se a Consciência Espelhada; a mente aflitiva torna-se a Consciência da Uniformidade; a consciência de pensamento (mano-vijñāna), a Consciência Investigadora e as restantes consciências de percepção tornam-se a Consciência da Actividade Aperfeiçoada.

Cada uma dessas consciências é uma faceta da iluminação e, ao contrário das consciências comuns, é não conceptualista e não dual, capaz de experienciar a realidade directa e autenticamente.

A escola Yogāchāra também fez grandes contribuições à budologia refinando as teorias que dizem respeito aos Três Corpos (trikāya) e às cinco consciências; para a soteriologia, com o Caminho de Cinco Etapas e para a hermenêutica, com a doutrina das Três Voltas da Roda do Dharma.